Likes de um Metaleiro

Estamos a meio de 2026: E o Metal Português Está a esmagar TUDO (e o Pior ainda Não apareceu!)

Como é possível, já irmos a meio de 2026!!???

É quase inevitável escrever isto, sem sentir um certo desconforto que a passagem do tempo me provoca.

Parece que ainda foi ontem que estava a ler as resoluções de ano novo dos amigos, a fazer as listas dos melhores discos de 2025, a marcar concertos imperdíveis na agenda para 2026. E a pensar em tudo aquilo que este novo ano poderia trazer.

E, de repente, dou por mim a entrar em Junho. Com os primeiros festivais de verão já ai à porta!

A vida tem esta mania irritante de acelerar quando não se está a olhar…

Talvez seja por isso que a música continua a ser tão importante para mim. Porque enquanto tudo passa demasiado depressa, um álbum consegue congelar um momento preciso. Obriga-nos a parar. A sentir. A recordar.

E se há coisa que esta primeira metade de 2026 me mostrou é que o Metal português continua numa forma impressionante e irrepreensível.

Não apenas pela quantidade de lançamentos, mas pela sua qualidade, pela diversidade e pela coragem artística de bandas que recusam seguir fórmulas fáceis.

Do Black Metal ao Doom, do Gótico ao Heavy tradicional a passar pelo Progressivo mais aventureiro, estes foram os discos nacionais que mais me marcaram até ao momento.

E o mais assustador?

Ainda falta metade do ano... 😉 🤘


1. Gaerea – Loss

Nota: 9.6/10

Se tivesse de escolher um único disco para representar o que de melhor se fez em Portugal até agora 
neste ano do Senhor, de 2026, seria este!

Sem hesitação.

Loss não é apenas mais um álbum dos Gaerea.

É a confirmação definitiva de que deixaram de ser “uma banda portuguesa promissora” para se tornarem uma entidade artística de dimensão mundial.

Em LOSS não existe preocupação em agradar aos fãs puristas do Black Metal nem em conquistar ouvintes do mainstream.

Existe apenas uma obsessão: transmitir dor.

Only pain is real.

A entrada definitiva de Alpha para voz central da entidade , trouxe uma dimensão ainda mais pessoal ao projeto, enquanto os contributos de Sonja (guitar + backing vocals) acrescentaram uma profundidade emocional inesperada, quase espectral.

Entre todas as faixas, continuo catarsicamente a regressar a:

  • Nomad

  • LBRNTH

  • Luminary

  • Submerged

  • Stardust

Estas canções não se limitam a tocar.

Permanecem. Ecoam.

Para mim, continua a ser o álbum do ano e aquele ao qual regresso uma e outra vez, praticamente todos os dias desde o seu lançamento.

Um daqueles discos raros que deixam de ser apenas música e passam a fazer parte da nossa rotina emocional.


2. A Dream of Poe – Katabasis: A Marriage Among Ashes

Nota: 9.3/10

E se há discos que impressionam pela técnica. Outros pela produção.

Os há que impressionam pela “backstory” e a carga emocional que carregam!

E para quem me segue há algum tempo, já sabe que costumo delirar com este ultimo grupo!

E Katabasis está claramente nesta categoria!

Depois de um incêndio ter destruído a casa de Miguel Santos aka SPELL (compositor e letrista da banda), com todas as suas memórias pessoais e praticamente todo o material que estava destinado a este trabalho, viu-se obrigado a reconstruir tudo do quase zero absoluto.

Não apenas as músicas. A própria vida.

E esse contexto , quanto a mim, está presente em cada segundo deste V (5) trabalho.

Fui pesquisar, a palavra “Katabasis” e descobri que significa “descida” em Grego.

Uma viagem ao submundo, ao Inferno, ou para os ATEÍSTAS as profundezas do “inner self”.

E é exatamente isso que encontramos aqui!

Músicas como “The Lament of Phaethon” e “The Captivity of Hesperus” demonstram uma maturidade composicional impressionante, mas é em “Exhorting Nightmares” que o álbum atinge um patamar verdadeiramente especial. Na reta final da música, quando surge a passagem em português, tudo muda.

Deixamos de ouvir uma personagem.

Passamos a ouvir, o grito interior do próprio Letrista.

“Na minha loucura, vivo; nesse colorido demente onde respiro...”

É um momento desconcertante, de enorme vulnerabilidade emocional.

Uma confissão. Um pedido de ajuda. Uma luta contra si mesmo, contra a apatia, aquele Vampiro invisível que tantas vezes nos drena a Energia e a vontade de continuar…

Já em “À Medida de Damastes” ADOP vai buscar à mitologia Grega Procrustes e torna-o assustadoramente atual!

Vivemos numa época em que tudo e todos parecem querer encaixar-nos numa medida pré-definida.

As redes sociais. As ideologias.

Os padrões de sucesso. As expectativas profissionais.

Tudo nos empurra para uma cama metafórica onde somos constantemente medidos.

E quando não encaixamos? Tentam cortar. Ou esticar.

Até deixarmos de ser quem somos…

Poucos discos conseguem unir literatura, filosofia, tragédia pessoal e emoção de forma tão eficaz como este KATABASIS de a DREAM OF POE.


3. Toxikull – Turbulence

Nota: 8.8/10

O Heavy Metal continua vivo. E bem afiado!

Os Toxikull já não precisam de provar nada a ninguém.

São já uma das principais referências nacionais quando se fala de Heavy Metal clássico com atitude contemporânea.

Mas em vez de repetirem a fórmula vencedora dos discos anteriores, decidiram arriscar um pouquinho mais.

Turbulence faz jus ao nome.

Existe mais ambição. Mais testosterona .

Mais variedade e maturidade.

Continua lá toda a energia dos “putos de cascais”, toda a sua paixão pelos anos dourados do Heavy Metal e toda a identidade que sempre caracterizou a banda.

Mas fica também bem demonstrada a sua evolução.

Sem perder a alma. Algo cada vez mais raro nos dias que correm.

Tive a oportunidade de assistir ao concerto de apresentação do álbum no RCA Club, numa noite que acabou por simbolizar muito daquilo que significa viver esta paixão pelo Underground.

Depois de um dia inteiro de trabalho nas comemorações do 25 de Abril, corri para Alvalade já cansado, mas com aquela sensação familiar de que há concertos aos quais simplesmente não podemos faltar. E ainda bem que fui!

Porque ver estas músicas ganharem vida no palco do RCA, com CASA CHEIA, reforçou aquilo que já suspeitava durante as minhas primeiras audições: os Toxikull estão num dos momentos mais fortes da sua carreira!

Se ainda não conhecem, vale a pena ir ouvir.


4. Hourswill – Ensemble

Nota: 8.0/10

Se os Gaerea representam a intensidade emocional e os Toxikull representam a força do Heavy Metal tradicional, os Hourswill representam a coragem artística.

Ensemble o IV (4) disco da banda Lisboeta, é provavelmente o seu trabalho mais desafiante. E digo isto obviamente, como elogio.

Num panorama onde tantas bandas procuram repetir fórmulas seguras, os Hourswill continuam a palmar território.

O ponto alto deste disco é inevitavelmente “Le Radeau de la Méduse”, uma composição de 23 minutos que demonstra uma ambição quase desmedida.

Mas o mais impressionante não é a duração.

É o facto de conseguir prender o nosso interesse do principio ao fim.

Um som Progressivo. Épic Doom, e um pouco de Experimental.

Resultado imprevisível e profundamente artístico.

Um disco que exige dedicação. Mas que recompensa largamente quem estiver disposto a embarcar na viagem. Marquem na agenda, Hourswill tem Concerto de apresentação deste seu novo trabalho a 27 de junho, 2026 no RCA CLUB, Alvalade.


5. SandMind – 13 Pragas Infernais

Nota: 7.3/10

Revelação Total. Surpresa do ano, visto o facto, de desconhecer por completo esta banda oriunda de São Pedro do Sul, Viseu, centro de Portugal.

Que surge de rompante, com um álbum de estreia surpreendentemente seguro, confiante e totalmente cantado em português. A invocar histórias da mitologia Egípcia.

Inspiraram-se nas pragas do Egito e expandiram o conceito para XIII manifestações de destruição, os SandMind apresentam assim um trabalho conceptual, profundamente enraizado no Heavy Metal clássico, e com identidade própria.

Em vários momentos, a voz parece-me a de Fernando Ribeiro a cantar em Português, enquanto musicalmente consigo encontrar ecos de Moonspell, Sétima Legião e Tarantula.

Para uma estreia, é um cartão de visita impressionante.

Daqueles que nos fazem ficar atentos ao próximo capítulo, que segundo os mesmos será mais uma obra conceptual, desta feita dedicada aos Descobrimentos Portugueses!


6. Insvla – Avir

Nota: 6.6/10

Fecho esta lista com mais um album atmosférico e imersivo.

Os Insvla exploram neste seu primeiro trabalho, raízes ancestrais, através de uma fusão de Metal Sinfónico, Modern Metal e algum Progressivo à mistura.

Avir respira paisagem. Respira memória.

Respira terra. Não é um álbum que procura velocidade ou agressividade.

Procura algo mais profundo. Uma ligação. Uma evocação.

E levam-nos em viagem a tempos onde os nomes das montanhas, dos rios e das florestas tinham significados que entretanto esquecemos…


Considerações Finais

Se há algo que esta primeira metade de 2026 demonstra, é que o Metal português atravessa um dos períodos mais criativos da sua história.

Temos bandas a conquistar o mundo. (GAEREA e TOXIKULL)

Temos bandas a reconstruir-se após tragédias pessoais. (A DREAM OF POE)

Temos veteranos a reinventarem-se. (HoursWill)

E temos estreantes a surgirem com uma confiança impressionante. (SandMind e Insvla).

Quando comecei os Likes de um Metaleiro, há mais de 10 anos, o objetivo nunca foi descobrir a próxima grande banda ou fazer previsões sobre o futuro.

Era simplesmente partilhar a paixão que me acompanha desde os anos 90.

Dos tempos das cassetes, dos CDs e mais tarde os MP3 trocados com amigos.

Das tardes passadas em lojas de discos.

Das noites passadas no Napster à procura daquela demo impossível de encontrar.

Das viagens intermináveis para ver bandas que quase ninguém conhecia.

E é precisamente por isso que me sabe tão bem olhar para esta lista.

Porque prova que o Metal português continua vivo.

Continua a crescer. Continua a emocionar.

E continua a dar-nos razões para acreditar que o melhor pode estar sempre ainda por vir…

Se o resto do ano mantiver este nível, a tarefa de escolher os melhores discos de 2026 vai ser tudo menos fácil.

E sinceramente?

Ainda bem.

Porque enquanto houver música assim, enquanto houver bandas dispostas a arriscar tudo por uma visão artística, enquanto existirem pessoas a criar arte contra todas as probabilidades...

o Underground continuará vivo.

E nós continuaremos aqui.

A ouvir. A sentir.

A carregar estas canções connosco.

Até ao próximo riff!

Carpe Diem e Metal On! 🤘

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